Antropologia

Tuesday, January 11, 2005

Relatório da comissão Gulbenkian. (1996) “Para abrir as ciências sociais”, Lisboa, Europa América.

Resumo

Desde sempre que a constante tendência para a descoberta e a busca de conhecimento fazem parte da natureza humana, no entanto o conhecimento não é uno, está sim, dividido em várias áreas consoante o método utilizado e sua própria função ou grau de fiabilidade. As ciências naturais como a matemática, a física, a química e a biologia foram as que primeiro se afirmaram enquanto ciências pois cedo desenvolveram um objecto de estudo e um método próprio com Newton e Descartes, (este mais no ramo da filosofia e metafísica ontológica e gnoseológica) os fundadores da época moderna. Desta forma todas as outras formas de conhecer foram de certo modo menosprezadas pela primazia de apenas um tipo conhecimento. As chamadas humanidades ou artes e letras foram claramente deixadas para segundo plano e excluídas daquilo que era considerado uma ciência visto o próprio conceito implicar a busca de uma verdade absoluta e intemporal. Desde logo se fez ver a polémica do conceito pois colocou em extremos opostos as disciplinas de matemática e filosofia que até então se vinham acompanhado unidas por um único objectivo: a busca de conhecimento.
O primeiro passo para o reflorescimento das disciplinas que iriam mais tarde conduzir ao nascimento do campo das ciências sociais foi a “física social”, disciplina enunciada a certa altura por filósofos pensadores do fenómeno social e que centrava o seu estudo da sociedade como um fenómeno orgânico. A “física social” nasceu devido a necessidades estaduais de se fazer um estudo dos fenómenos sociais para uma melhor adequação e aplicação de estratégias politicas uma vez que as ciências naturais não estavam aptas, devido ao estatuto ás próprias limitações do seu método que se dizia absoluto, determinista e intemporal, a fornecer dados conclusivos apropriados a uma dada situação impar e teoricamente irrepetível do mundo social.
A antropologia deixou de ser como até então a ciência se dedicava apenas ás tribos e alargou o seu objecto de estudo à sociedade e ao comportamento humano num âmbito mais universal e menos ocidentalizado. Este desenvolvimento permitiu uma abertura de campos de exploração até que despertaram novos interesses como o estudo de civilizações mais evoluídos e de certa forma paralelas como o mundo islâmico-arabe e a china, que posteriormente se vieram a concentrar numa nova disciplina: o orientalismo, este integrado na área das humanidades e não das ciências. Os estudos orientais tiveram origem no interior da igreja numa época de progressos tecnológicos e da consequente colonização visando o estudo das colónias e a sua evangelização. A institucionalização dos estudos orientais potencializou também o nascimento dos estudos clássicos mais voltados para a sociedade ocidental. Nenhuma destas disciplinas pode ser considerada como ciência social mantendo apenas um carácter literário. Foi em França e na Grã-bretanha que o verdadeiro valor de algumas destas “proto-ciencias” que originariam as ciências sociais ganhou o seu primeiro reconhecimento através da constatação de que os fenómenos sociais humanos não eram tão naturalmente auto reguláveis como se pensava até então, eram sim fenómenos passíveis de serem estudados, entendidos esquematizados, previstos, moldados e contornados, possibilitando assim uma mais imediata resolução de múltiplas situações. Assim as ciências sociais, acredita-se, terão sido um produto mais ou menos directo dos estados.
Houveram também três áreas de estudo que apesar do seu desenvolvimento nunca contribuíram de facto para o nascimento das ciências sociais. Estas foram a geografia, a psicologia e o direito sobre as quais houveram varias tentativas de especialização algumas das quais nunca chegaram a obter um estatuto autónomo diluindo-se enquanto pequena área de estudo dentro de uma outra faculdade como foi o caso da psicologia social e dos estudos jurídicos, mas sobrevivendo noutros casos a esta tentativa de absorção.
Em 1945 a história, a economia, a sociologia e a ciência politica foram finalmente instituídas como disciplinas universitárias apenas nos países mais desenvolvidos. Com as mudanças a nível politico verificadas no sec XIX, e para além das novas disciplinas que foram criadas devido á necessidade de controlo e entendimento do comportamento social, houve igualmente uma reforma nas velhas disciplinas como foi o caso da história que passou a ser mais exacta e menos fictícia e alegórica do que até então. Esta área passou então a ter por máxima da busca da verdade acima de tudo.
Conquistou-se assim outro rigor na análise dos factos que possibilitou a obtenção dos direitos que até e então só estavam reservados ás ciências naturais ditas exactas.
Entre 1850 e 1945 deu-se finalmente o reconhecimento das disciplinas de história, sociologia, economia, ciência politica e antropologia como ciências sociais sendo esta a maior vitória do visível esforço de homens que eram até então eram marginalizados e incompreendidos por um sistema de onde predominava um outro tipo de conhecimento que se dizia superior por ser exacto. Felizmente nos dias de hoje o nascimento destas ciências sociais é reconhecido e foi, como se sabe, indispensável para o “escrever” da história desde o início da época moderna até aos nossos dias.
A termo de conclusão podemos então afirmar que a primazia das ciências naturais se auto justificou plenamente em resultados práticos até ao sec. XVIII, altura em que o desenvolvimento tecnológico acabou por provocar alterações a vários níveis sobretudo a nível espacio-temporal e económico-sociológico que a seu tempo vieram a exigir o real desenvolvimento e independência das ciências sociais. Estas ciências têm vindo a conquistar uma autonomia e um papel cada vez mais necessário e distinto nas sociedades da actualidade conseguindo de facto efectivar a necessidade da sua existência em resultados práticos coisa que não seria possível aquando da sua inicial separação daquelas que foram inicialmente assumidas como ciências. Só a passagem do tempo e o desenvolvimento das estruturas sociais trouxeram consigo a necessidade de estudos e das aplicações teóricas referentes ao comportamento social nas suas várias vertentes isto é as ciências sociais.

0 Comments:

Post a Comment

<< Home